Conheço Jason Vogel, uma pessoa especial, há muito tempo. Pesquisador no assunto automóvel, conhece de tudo. Dá uma atenção especial ao VW Fusca e tem colaborado com o meu trabalho com as coisas que descobre.

Recentemente o Jason comentou a matéria “O resgate do VW Fusca patrulhinha de Taubaté”. Escreveu: “Que resgate fantástico! Ainda há gente com sensibilidade no mundo. Parabéns à turma do CAAT (Clube de Autos Antigos de Taubaté) pela iniciativa e esforço. Acho que eu teria desanimado no primeiro “não dá”…” Adiante ele comentou: “Cheguei a ver esse Fusquinha nos tempos em que ainda estava na ativa, em 2008! Eu estava na Dutra, altura de Taubaté, voltando de uma viagem ao Uruguai ao volante do “LEA”. Cheguei a tirar uma foto, vou procurar aqui…”

Pois bem, fiquei curioso em saber o que era “LEA” e perguntei, ao que ele me enviou uma foto de um Fusca e pediu que eu reparasse na placa:

O LEA na volta do Uruguai, em 2008: no Rio Grande do Sul, o último trecho não asfaltado da BR-101, na faixa de terra entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico (Foto Jason Vogel)

Em seguida ele me contou a história do LEA, que já sabemos ser um Fusca muito querido. Fiquei encantado com esta história e convidei-o para contá-la aos leitores e leitoras da minha coluna.


“LEA”, do ferro-velho ao Uruguai

Por: Jason Vogel

Essa história começa em 2007, quando dois colegas de redação no jornal O Globo me perguntaram (quase ao mesmo tempo) se eu tinha algum Fusca à venda. Um desejava o carro para a filha, que estava para completar 18 anos. O outro queria para uso próprio: há muitos anos longe do volante, ele pretendia renovar a habilitação e dizia que o único carro que ainda sabia guiar era Fusca! Com esses “clientes” em potencial, pensei que poderia me divertir comprando e restaurando um besouro, sem gastar dinheiro.

Pergunta daqui, pergunta dali, e o Orlando (famoso vendedor de peças de Volkswagen “a ar” no Rio) deu a dica:

— “Rapaz, corre lá no ferro-velho do seu João, em Realengo, que ele está para desmontar um 69 bem inteirinho”.

Foto tirada pouco tempo depois do resgate do LEA do ferro-velho. Em frente da fábrica de tecidos Confiança (hoje Boulevard). O carro ainda estava com faróis “Tremendão” que era uma adaptação para usar faróis tipo “sealed beam” no Fusca (Foto: Jason Vogel)

Dito e feito: chegando ao ferro-velho, lá estava o Fusquinha vermelho com cara triste, já sem os bancos. Parecia bem alinhado. Só precisava de um pouco de amor. Os documentos estavam ok e fechamos negócio por R$ 4.500.

O fiel motor boxer arrefecido a ar de 1285 cm³ que ainda estava muito bom (Foto: Jason Vogel)

Daí foi dar carinho ao Fusca — logo rebatizado de LEA por causa das letras de sua placa. A lista de peças nem foi tão grande: pneus e carburador novos, botões do painel corretos, um acertinho aqui, outro ali, e LEA ficou bem apresentável.

O painel do LEA que recebeu os botões corretos (Foto: Jason Vogel)
O carro estava com o jogo de frisos cromados sobre a grade de entrada de ar do motor – item raro – que foi vendido por um bom dinheiro que foi revertido em algumas peças originais. Detalhe para os aros de roda que ainda estavam pintados em alumínio (Foto: Jason Vogel)

Acontece que, a essa altura, meus dois colegas tinham desistido de comprar Fusca… Chegaram as férias e o LEA estava tão bom de andar que resolvi ir ao Uruguai com ele. Sim: o carro encarou, sem problemas, um bate e volta de 5.800 km entre o Rio de Janeiro e Colonia del Sacramento. Que outro automóvel recém-saído de um ferro-velho faria algo assim?

Na ida ao Uruguai em 2008, uma parada em Florianópolis; ponte Hercílio Luz, cartão postal da cidade, ao fundo (Foto: Jason Vogel)
“Plaza Independencia”, Montevidéu (2008): ao fundo, o Palacio Salvo, edifício mais famoso da capital uruguaia (Foto: Jason Vogel)

Nem é preciso dizer que o LEA e eu estamos juntos até hoje, 14 anos depois do primeiro encontro. Agora pretendo, pela primeira vez, dar-lhe um banho de vermelho cereja e refazer suas forrações.

Gaúchos tocando gado Hereford: Fusca com placa do Rio na paisagem rural do Uruguai (2008) (Foto: Jason Vogel)
Volta do Uruguai (2008): na balsa entre a cidade de Rio Grande e São José do Norte, no Rio Grande do Sul. Esta balsa cruza o canal que liga a Lagoa dos Patos ao Oceano Atlântico – via de acesso dos navios a Porto Alegre (Foto: Jason Vogel)

Sim, o LEA ainda está com a mesma aparência geral dos tempos do ferro-velho. Não é peça de coleção, mas um amigo confiável no dia a dia. É dar meia volta no arranque que ele acorda sempre bem-disposto. Vai às compras, leva criança à escola e à piscina, trabalha sem descanso e, quanto mais roda, melhor fica.


Conhecendo Jason Vogel

O Jason Vogel a bordo do fiel LEA (Autorretrato: Jason Vogel)

Jason Vogel é jornalista automobilístico. Foi repórter e editor do caderno CarroEtc, do jornal O Globo, por 26 anos. Hoje escreve para o site Motor1.com e é produtor do programa Auto Esporte.

Eu ainda acrescento que o Jason é um pesquisador de primeira, ele tem levantado muitos aspectos históricos perdidos em jornais e revistas de época trazendo informações importantes para nosso conhecimento. Como foi o caso da matéria em três partes “Quando o “Carro do Povo” virou notícia no Brasil?“, uma rica e interessante documentação de jornais e revistas cuidadosamente garimpadas pelo Jason.

Seu conhecimento sobre carros atuais é muito grande também e ele participou de vários salões de automóveis internacionais, bem como visitas a fábricas e museus.


O Jason enviou um lembrete: esta história e muitas outras estão no livro “Do Fusquinha ao Fórmula 1”, de minha modesta autoria. Ainda tenho exemplares para venda direta. Mensagens para: [email protected].

Há pouco veio uma foto curiosa mandada pelo Jason:

Exemplares do livro “Do Fusquinha ao Fórmula 1” a caminho dos correios a bordo do Fusquinha que deu título ao livro (Foto: Jason Vogel)

Um chamamento: tanto a presente matéria sobre o “LEA” quanto a “O resgate do VW Fusca patrulhinha de Taubaté” falam de Fuscas que tiveram a oportunidade de uma segunda vida. A esperança é que estes relatos motivem novos resgates de outros Fuscas, tanto por clubes quanto por apreciadores da marca independentes. Nestes dias é muito importante dar uma nova chance a novos sobreviventes!

AG

Agradeço ao Jason por mais esta parceria e espero por novos projetos em conjunto!
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