Caros leitores, quem me conhece sabe que tenho fama de falar muito — não totalmente inverídica, diga-se. Tenho um querido amigo que sempre diz isso e, não raro, entre gargalhadas e carinhosamente, me diz coisas como: “Norinha, fica quieta!”. Prontamente, meu marido sempre diz algo no estilo: “Se eu não consegui isso em décadas que estamos juntos, você acha que vai conseguir? Bem, boa sorte…”. Já combinaram, inclusive numa noite que ele vinha em casa jantar com a esposa: levo o vinho e o silvertape. E eu, sem ninguém para me defender… snif, snif.

Quando escrevo sobre um assunto do qual gosto é a mesma coisa. Quando comecei minha coluna sobre comemorações simpáticas ou diferentes nos pódios na Fórmula 1 (foto de abertura) não fazia ideia de que, tal qual a bolha assassina do filme de terror, o assunto acabaria por me engolfar completamente.

Fiz a parte I, mas logo percebi que seria necessária uma parte II. Mas então recebi comentários de leitores que diziam que eu havia deixado de fora alguma comemoração. Assim, tal qual filme de zumbi, fez-se (eis minha ênclise da semana, modestíssima) evidente que haveria uma parte III. Mas prometo que esta será a última da série e já peço desculpas por momentos que tenham sido omitidos desta série.

Então, vamos a derradeira coluna sobre o assunto, já abordado aqui e aqui.

China 2008

Troféu quebrou ainda no pódio (Foto: motor1.com)

Esta é para alimentar o preconceito contra a qualidade dos produtos chineses. Quando Lewis Hamilton ganhou o GP de Xangai de 2008, ainda no pódio soltou-se o fundo da taça. A cena foi tão hilariante que até o geralmente blasé e até mesmo alheio a tudo Kimi Räikkönen caiu na gargalhada.

EUA 2005 (Indianápolis)

Esta foi uma das corridas de Fórmula 1 mais polêmicas — de uma longa série, diga-se. Depois que as equipes da Bridgestone e da Michelin não chegaram a um acordo, a prova acabou sendo realizada com apenas seis pilotos — um par de Ferraris dando voltas em todos os outros (quatro) carros. Tempos depois, o caso ficou conhecido como  “Tyregate” (tyre= pneu) que deu início à saída da Michelin do esporte. O público vaiou e atirou garrafas de cerveja. Com esse clima, não havia como o pódio ser muito diferente. Lá estavam a dupla de Ferrari (Schumacher e Barrichello) com ar severo e o português Tiago Monteiro, radiante, da Jordan. O clima era tão pesado que o hino nacional italiano foi inexplicavelmente interrompido, mas as vaias continuaram. A equipe Ferrari saiu sem estourar o champanhe, deixando o solitário Tiago no pódio, para felicidade da Jordan. Foi seu único pódio na carreira. Assista ao vídeo:

 

Brasil 1982

Calor e exaustão derrubaram o campeão (Foto: motorsport1.xom)

Uma das imagens mais marcantes da categoria e de quanto ela exige (talvez exigia fosse mais apropriado) dos pilotos. Um dos motivos pelos quais eu os considero atletas. Nélson Piquet, sob um sol escaldante e uma prova exaustiva, desmaia no pódio. E aqui vai um parêntese: outra belíssima imagem para mim é a de Nigel Mansell descendo do carro e empurrando seu Lotus para tentar cruzar a linha de chegada no circuito de Dallas, em 1984. Ele não conseguiu, desmaiou e mesmo que tivesse chegado não valeria pois o regulamento não permitiria – mas ficou a marca da vontade de chegar. E, como todos sabem, eu adorava odiar o Mansell porque ele disputava com meu ídolo Nélson Piquet. Mas é uma das mais lindas imagens de Fórmula 1 de que me lembro — embora tenha que consultar quem foi que venceu aquela prova: Keke Rosberg.

Brasil 1981

 

A ordem de trocar posições foi ignorada (Foto: torcedores.com)

Carlos Reutemann liderava a corrida com seu Williams e seu companheiro de equipe, o australiano Alan Jones, vinha em segundo. Frank Williams ordena a troca de posições e os mecânicos exibem claríssimamente a placa “JONES –REUT”. Mas o argentino ignora o pedido e vence a prova. Jones, furioso, se recusa a subir no pódio. A prova terminou com Riccardo Patrese em terceiro lugar. No final do ano, o campeão foi Nélson Piquet, com Reutemann em segundo lugar e Alan Jones em terceiro.

Áustria 1987

Na verdade, a trapalhada, lembrada pelo leitor Eduardo, aconteceu no meio do caminho, antes de chegar ao pódio. Mas vale a lembrança. Nigel Mansell venceu a corrida, mas, distraído enquanto dava tchauzinho para os fãs, acabou batendo a cabeça numa viga de ferro. O mais cômico foi a entrevista posterior —  com uma bolsa de gelo na cabeça. Assista ao vídeo:

México 2019

“Selfie” inconveniente (Foto: racefans.net)

Pessoalmente, gosto dos troféus na forma de taça, clássicos. Mas há muitos realmente bonitos. Bem, não foi o que Sebastian Vettel achou quando lhe entregaram o prêmio pelo segundo lugar. “Você faz uma corrida tão boa e todos se esforçam tanto… e então você recebe esses troféus porcarias, totalmente sem graça. Isso é muito chato”. Mas o alemão reclamou também de outra novidade, um sujeito vestido com trajes típicos mexicanos e com capacete que subiu ao pódio durante a entrega de prêmios. “Não gostei do cara fazendo selfie, tentando entrar na foto, então eu o empurrei para fora. Não sou um fã de selfies”.  Provavelmente ninguém mais gostou, pois a Liberty Media acabou com essa ideia, instituída por ela mesma.

Brasil 2007

 

Governador não reconheceu Massa (Foto: wordpress.com)

OK que apenas alguns brasileiros fãs de Fórmula 1 devem ter notado, mas na hora de entregar os troféus, o então governador de São Paulo José Serra confundiu Felipe Massa (segundo colocado) com Fernando Alonso (terceiro lugar). Como os dois falam português, fico imaginando como foi o “ops, eu sou o brasileiro que terminou em segundo”.

Europa 2007

Schumacher no pódio, mas sem receber troféu (Foto: motorsport.iuol.com)

A corrida aconteceu no circuito de Nürburgring e foi palco de uma cena marcante. Michael Schumacher subiu ao pódio. OK, nada a estranhar para quem fez isso 155 vezes em toda a carreira. Mas desta vez não havia corrido, pois estava aposentado. Ele subiu ao pódio apenas para entregar o prêmio a Fernando Alonso. O segundo lugar ficou com Felipe Massa e o terceiro com Mark Webber.

Brasil 1989

Prêmio cortou a mão de Mansell (Foto: formula1.xom)

Se os prêmios chineses deixaram a desejar quanto à qualidade, o brasileiro de 1989 também fez feio. O inglês Nigel Mansell venceu a prova em Jacarepaguá com seu Ferrari, mas, na hora de levantar a taça, acabou cortando o dedo. Será que isso foi mandinga de algum piquesista?

Mudando de assunto: faz tempo que algo me incomoda. Não tenho nada contra assistentes de vários tipos, para todo tipo de pessoa, mas me perturba ver Lewis Hamilton com a Angela Cullen, correndo atrás dele pateticamente. Na Bélgica ela foi levar a ele o patinete e, enquanto o piloto se dirigia ao boxe nessa geringonça, a coitada corria atrás dele, a pé, carregando um zilhão de coisas. Quando ele trocou de casaco (levado, adivinhem por quem?) simplesmente o jogou em cima dela como se a coitada fosse um cabide ou apenas uma montanha de roupa. Há mais de 20 outros pilotos no grid da F-1 e nenhum deles, nenhum, tem alguém assim. Cada um consegue carregar o próprio capacete, inclusive. Pronto, falei.

NG

A coluna “Visão feminina” é de exclusiva reponsabilidade de sua autora.